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    June 20

    Manuela Amaral

     
     
     
     
     
    TEU CORPO DE AGOSTO

    Teu corpo é Agosto

    Tu cheiras a verão
    por baixo das veias

    Tu cheiras a quente

    Tu cheiras à febre
    do sangue maduro

    Teu ventre de orgia
    teu cheiro a sodoma
    aroma-mulher

    Teu corpo de agosto
    tem cheiro a setembro.

     

    May 21

    Sextina

     
     
    Tanto de amor se disse que não sei
    Como dizer que amor é outra coisa
    Que nem só o teu corpo me fez rei
    Nem tua alma só me deu a rosa
    Tanto se disse menos o dizer
    Esta paixão que é de todo o ser

    E ao fim do ser ainda a outra coisa
    Mais do que corpo e alma e ser não ser
    Como entre vida e morte e sexo e rosa
    Um morrer e um nascer. Como dizer
    Este reino em que sou o servo e o rei
    Como dizer se tanto e ainda não sei

    Como dizer este Elsenor sem rei
    Se tanto disse menos o dizer
    Esta paixão que sabe o que não sei
    Em Elsenor de ser e de não ser
    Senão que amor ainda é outra coisa
    Como entre o corpo e a morte o anjo e a rosa

    Como dizer do sexo a alma e a rosa
    Se amor é mais que ter e mais que ser
    Um morrer ou nascer ou outra coisa
    Entre a vida e a morte e um não dizer
    Senão que disse tanto e ainda não sei
    Como dizer de amor se servo ou rei

    Se disse tanto menos o dizer
    Esta paixão da alma que não sei
    Se é o sexo ou seu anjo ou só o ser
    Entre a vida e a morte o breve rei
    Deste reino que fica à beira-rosa
    Do teu corpo onde amor é outra coisa

    Como dizer de amor ser e não ser
    Se amor mais do que amor é outra coisa
    Mais do que ser e ter mais que dizer
    Um morrer e nascer entre anjo e rosa
    Ou entre o corpo e a alma o servo e o rei
    Como dizer se tanto e ainda não sei.


    Manuel Alegre
    April 17

    Sobre mim mesma

     

     
    Não sou uma pessoa rotulada,
    Se eu não estou de bom humor, vou te mostrar isso!
    Se eu não estou feliz, não vou me desmanchar em sorrisos!
    Se eu não quero, não espere que eu aceite!
    Se eu te amar, isso vai ser importante pra mim!
    Se eu desejo, vou buscar!
    Se eu chorar, é porque cheguei ao meu extremo!
    Se eu me culpei, foi porque assumi os meus erros!
    Se eu desisti, foi porque alguém assim quis!
    Se eu tenho orgulho, é porque ainda preservo certas coisas!
    Se eu sou assim, é porque também sou ser humano!
    Se eu fiz alguém sofrer, já paguei esse pecado!
    Se eu sou sincera, é porque odeio hipocrisia!
    Se eu disse que te amava, é porque te amava!
    Se eu disse que te odiava, é porque te odiava!
    Se eu disse que é eterno, é eterno!
    Se eu disse que não, foi por um bom motivo!

    Alzira Paulino
    March 24

    Santos e Pecadores-Fala-me de amor

     
     
     Acabei por ter
    Um fraco por ti
    Que foi como veio
    E eu não percebi

    Pergunto como está
    A velha certeza
    Será que tu sabes
    O que correu mal

    É que hoje eu já sabia dizer

    Ama- me, leva- me p'ra lá do meu horizonte
    Falando de amor
    Fala- me de amor

    Segue-me, prende-me p'ra lá do meu horizonte
    Falando de amor
    Fala- me de amor

    Quero-te dizer
    Que ainda estou aqui
    Todo o tempo à espera
    De ti

    Quero-te alcançar
    E estou a pedir
    P'ra ser como era
    Quando te conheci
     
    August 29

    Soares Feitosa

     

     
     
    Não lavei os seios
    pois tinham o calor
    da tua mão.
    Não lavei as mãos
    pois tinham os sons
    do teu corpo.
    Não lavei o corpo
    pois tinha os rastros
    dos teus gestos;
    tinha também, o meu corpo,
    a sagrada profanação
    do teu olhar
    que não lavei.
    Nem aqueles lençóis,
    não os lavei,
    nem os espelhos,
    que continuam
    onde sempre estiveram:
    porque eles nos viram
    cúmplices, e a paixão,
    no paraíso,
    parece que era.
    Lavei, sim,
    lavei e perfumei
    a alma, em jasmim,
    que é tua, só tua,
    para te esperar
    como se nunca tivesses ido
    a nenhum lugar:
    donde apaguei
    todas as ausências
    que apaguei
    ao teu olhar.

    August 11

    Faz Tempo

     

     
     
    Faz tempo,
    Penoso tempo de ausência,
    Sinto uma espécie de degredo,
    Não sei se é culpa minha ou tua,
    Por certo, apenas da vida.
    Faz tempo,
    Já nem eu sei bem ao certo quanto,
    Estou perdendo a memória,
    Que vai parecendo curta,
    Ou será que é pura fantasia?
    Faz tempo,
    Longo tempo de tua ausência,
    À medida que o tempo passa,
    Há uma saudade que dói e castiga,
    Ou será que ele brinca comigo,
    Para me testar a fibra?
    Faz tempo,
    Não, não é mera aparência,
    Eu sinto que neste momento,
    Ele me condena,
    Porque me tira a tua companhia.

    Beatriz Barroso
     
    June 09

    Maria Tereza Horta

     

      


    MEMÓRIA
     
    Retenho com os meus
    dentes
    a tua boca entreaberta
    e as palmas das mãos
    dormentes
    resvalam brandas e certas
    As tuas mãos no meu peito
    e ao longo
    das minhas pernas
     
    (CANDELABRO, 1964)
     
    May 24

    Celso Brito

     
      
    Eu sempre soube da verdade em teus olhos.
    O que eles me disseram mantive guardado,
    fora do alcance das conversas.

    Havia um tempo em que a despedida
    principiava um outro encontro,
    escondido dos olhos e das conversas.

    Havia um tempo com um doce cheiro no ar
    de todos os perfumes.
    Uma busca constante do olhar,
    um gosto a mais nas coisas...
    Era batom!

    E era depois a pele,
    o deslizar dos cabelos,
    o afago das mãos...

    A casa cheia de nossas conversas,
    dos modos, das esperas e demoras.
    Uma vida em tantos acordar!

    Era por fim um outro olhar,
    sem mais as mesmas verdades
    (embora nunca mentiras).
    Mas sem as mesmas respostas.

    Outras vozes agora falam no nosso silêncio.
    Mudamos os rumos,
    os olhares,
    o sentido da conversa.

    Celso Brito
     
    May 09

    Pablo Neruda

     

       
     
     
     
     
    Quero apenas cinco coisas.
    .Primeiro é o amor sem fim
    A segunda é ver o outono
    A terceira é o grave inverno
    Em quarto lugar o verão
    A quinta coisa são teus olhos
    Não quero dormir sem teus olhos.
    Não quero ser... sem que me olhes.
    Abro mão da primavera para que continues me olhando.

    Pablo Neruda
     
     
    April 19

    Rifa-se um Coração

     

     

     

     
     
    Rifa-se um coração
    Rifa-se um coração quase novo.
    Um coração idealista.
    Um coração como poucos.
    Um coração à moda antiga.
    Um coração moleque que insiste
    em pregar peças no seu usuário.
    Rifa-se um coração que na realidade está um
    pouco usado, meio calejado, muito machucado
    e que teima em alimentar sonhos e, cultivar ilusões.
    Um pouco inconseqüente que nunca desiste
    de acreditar nas pessoas.
    Um leviano e precipitado coração
    que acha que Tim Maia
    estava certo quando escreveu...
    "...não quero dinheiro, eu quero amor sincero,
    é isso que eu espero...".
    Um idealista...Um verdadeiro sonhador...
    Rifa-se um coração que nunca aprende.
    Que não endurece, e mantém sempre viva a
    esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
    Um coração insensato que comanda o racional
    sendo louco o suficiente para se apaixonar.
    Um furioso suicida que vive procurando
    relações e emoções verdadeiras.
    Rifa-se um coração que insiste em cometer
    sempre os mesmos erros.
    Esse coração que erra, briga, se expõe.
    Perde o juízo por completo em nome
    de causas e paixões.
    Sai do sério e, às vezes revê suas posições
    arrependido de palavras e gestos.
    Este coração tantas vezes incompreendido.
    Tantas vezes provocado.
    Tantas vezes impulsivo.
    Rifa-se este desequilibrado emocional
    que abre sorrisos tão largos que quase dá
    pra engolir as orelhas, mas que
    também arranca lágrimas
    e faz murchar o rosto.
    Um coração para ser alugado,
    ou mesmo utilizado
    por quem gosta de emoções fortes.
    Um órgão abestado indicado apenas para
    quem quer viver intensamente
    contra indicado para os que apenas pretendem
    passar pela vida matando o tempo,
    defendendo-se das emoções.
    Rifa-se um coração tão inocente
    que se mostra sem armaduras
    e deixa louco o seu usuário.
    Um coração que quando parar de bater
    ouvirá o seu usuário dizer
    para São Pedro na hora da prestação de contas:
    "O Senhor pode conferir. Eu fiz tudo certo,
    só errei quando coloquei sentimento.
    Só fiz bobagens e me dei mal
    quando ouvi este louco coração de criança
    que insiste em não endurecer e,
    se recusa a envelhecer"
    Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por
    outro que tenha um pouco mais de juízo.
    Um órgão mais fiel ao seu usuário.
    Um amigo do peito que não maltrate
    tanto o ser que o abriga.
    Um coração que não seja tão inconseqüente.
    Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
    mas que incomoda um bocado.
    Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda
    não foi adotado, provavelmente, por se recusar
    a cultivar ares selvagens ou racionais,
    por não querer perder o estilo.
    Oferece-se um coração vadio,
    sem raça, sem pedigree.
    Um simples coração humano.
    Um impulsivo membro de comportamento
    até meio ultrapassado.
    Um modelo cheio de defeitos que,
    mesmo estando fora do mercado,
    faz questão de não se modernizar,
    mas vez por outra,
    constrange o corpo que o domina.
    Um velho coração que convence
    seu usuário a publicar seus segredos
    e a ter a petulância de se aventurar como poeta.

    Clarice Lispector
    April 08

    Clarice Lispector

      
     
     
     
    Não te amo mais
    Estarei mentindo dizendo que
    Ainda te quero como sempre quis
    Tenho certeza que
    Nada foi em vão
    Sinto dentro de mim que
    Você não significa nada
    Não poderia dizer mais que
    Alimento um grande amor
    Sinto cada vez mais que
    Já te esqueci!
    E jamais usarei a frase
    Eu te amo!
    Sinto, mas tenho que dizer a verdade
    É tarde demais...

    Clarice Lispector

    Leia do fim para o princípio.
     
     

     
    December 13

    Jorge de Sena

     
     
     
     
     
     
    Beijos
     
    Um beijo em lábios é que se demora
    e tremem no de abrir-se a dentes línguas
    tão penetrantes quanto línguas podem.
    Mas beijo é mais. É boca aberta hiante
    para de encher-se ao que se mova nela.
    E dentes se apertando delicados.
    É língua que na boca se agitando
    irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
    e sobretudo o que se oculta em sombras
    e nos recantos em cabelos vive.
    É beijo tudo o que de lábios seja
    quanto de lábios se deseja.

    November 27

    Que pena que tinhas que ir, assim...

     

     
    VISITA

    Bata!

    Quem sabe o passado acorde

    Escutando o teu toc-toc insistente

    E volte a sonhar em ser futuro

    Do presente que ontem morreu

    Bata!

    E escute o silêncio que foi na partida

    Aquela despedida tão dorida

    Um nó na garganta, olhares vazios...

    Bata!

    Melhor assim... Não bata...

    Adeus


    Yon Rique
     
     
    November 19

    Carlos Drummond de Andrade

     

     
     
    Ainda que mal te pergunte,
    Ainda que mal respondas;
    Ainda que mal te entenda,
    Ainda que mal repitas;
    Ainda que mal insistas,
    Ainda que mal desculpes;
    Ainda que mal me exprima,
    Ainda que mal me julgues;
    Ainda que mal me mostre,
    Ainda que mal te encare,
    Ainda que mal te furtes;
    Ainda que mal te siga,
    Ainda que mal te voltes;
    Ainda que mal te ame,
    Ainda que mal o saibas;
    Ainda que mal te agarre,
    Ainda que mal te mates;
    Ainda assim, pergunto: Me amas?
    E me queimando em teu peito
    Me salvo e me dano...
    ...de AMOR!!!

     
    Carlos Drummond de Andrade
    November 06

    Cigana

     

     

    O melhor beijo é o beijo desejado,
    o beijo que me completa,
    o beijo da minha forma adequada,
    o beijo com o sabor do desejo
    na flor da minha pele,
    o beijo da minha vontade,
    o beijo que faz o meu pensamento,
    o beijo que faz a minha boca e
    meu corpo querer um novo beijo
    outra vez e mais outra vez.
    O melhor beijo é o beijo sem tempo,
    o beijo de longa duração ou de pouca duração,
    um beijo de vinte segundos
    ou de vinte minutos, isto não importa.
    O tempo não conta,
    enquanto se beija o tempo para, o tempo freia.
    E nesta inércia do tempo
    só sinto a louca vontade do outro.
    Sinto a outra língua que de encontro
    com a minha faz um passeio suave e
    excitante umedecendo minha alma.
    Sinto a língua que viaja dos
    dentes ao céu da boca.
    Sinto a língua que acarinha os
    meus lábios. A língua e a língua...
    A língua que me roça, que me percorre,
    que me navega e que me lambe...
    O melhor beijo é o beijo em que a língua
    faz o beijo e o beijo faz o sexo.

    Cigana

    Foto:Robert Doisneau

    October 03

    Julieta Lima

    ">

     
     
    Invento-te
    Invento-me
    Sem formas
    Nem cor
    Nem perfis
    Nem tela!

    Nós dois...
    Esculpidos
    No silêncio de uma praia
    Que a anarquia do mar
    Afaga e flagela!

    Invento-te

    Barco transparente
    Em indecisos traços
    Adivinhando
    Ais libidinosos
    No sexo da água
    Em que me torno
    Ousada ondulada bela
    A estremecer
    Quando de manso
    Me rasga capitosa
    A volúpia acerada
    De uma vela...

    Julieta Lima
    September 11

    Vinícius de Morais

     

     
    Tu me levaste, eu fui... Na treva, ousados
    Amamos, vagamente surpreendidos
    Pelo ardor com que estávamos unidos
    Nós que andávamos sempre separados.

    Espantei-me, confesso-te, dos brados
    Com que enchi teus patéticos ouvidos
    E achei rude o calor dos teus gemidos
    Eu que sempre os julgara desolados.

    Só assim arrancara a linha inútil
    Da tua eterna túnica inconsútil...
    E para a glória do teu ser mais franco

    Quisera que te vissem como eu via
    Depois, à luz da lâmpada macia
    O púbis negro sobre o corpo branco.

    Vinícius de Morais
    Visto aqui

    Foto:Novic Arman Zhenikeyev 
    September 01

    Simone Barbariz

     

     

     

     

    Testemunhas: as quatro paredes.
    Local do crime: a cama.
    Réus: eu e você.
    Crime cometido: amor louco e desenfreado,
    Amor sem limites,
    Amor em todas suas formas possíveis,
    Em todas as formas em que éramos compatíveis.

    Acoplados com a perfeição de dois módulos espaciais,
    Onde qualquer erro milimétrico,
    Compromete o sucesso da missão...

    Missão cumprida...

    A missão foi um sucesso total,
    Pois dois corpos tornaram-se um!
    Não mais existia eu e você,
    Mas, sim, eu-você...

    Cometemos um crime perfeito!

    August 23

    Bertolt Brecht

     

     
     
    Aquele que amo
    Disse-me
    Que precisa de mim.
    Por isso
    Cuido de mim
    Olho meu caminho
    E receio ser morta
    Por uma só gota de chuva.

    Bertold Brecht

     

    August 05

    MONALISA

     
    foto de T Glow
     
     
     
    Não te conheço ainda não sei quem és
    Disseram-me de ti tantas coisas que não ouço
    Disseram-me de ti que tinhas visto o mundo

    Não conhecia ninguém que tivesse visto o mundo
    Sempre estive encerrada na minha aldeia
    Nunca soube bem o que encontrar do lado de lá do monte

    Uma vez vieste à missa do meio-dia
    E encontrei-te ao sol da tarde no adro da igreja
    Eu era a menina de tranças e tu o rapaz de blusão de couro

    Mas os meus olhos eram da cor dos teus
    E o mundo que eu não vi estava no teu olhar
    E o mundo que eu vi estava em mim e tu soubeste



    http://sitiodasaudade.blogspot.com/